3. BRASIL 12.6.13

1. ESPECIAL - TODAS AS CARAS DE DIRCEU
2. SUPREMO  BEIRA DA CURVA
3. JUSTIA FEITA PELA METADE
4. A DILMA PRECISA EVOLUIR
5. ABANDONADOS, USADOS E, AGORA, FURIOSOS
6. HOMEM BRANCO QUER APITO

1. ESPECIAL - TODAS AS CARAS DE DIRCEU
Na mais completa e surpreendente biografia do petista, as aventuras, traies, amores e tramias do lder estudantil bonito e mulherengo que virou o segundo homem mais poderoso da Repblica  e que agora se encontra a caminho da priso.
THAS OYAMA

     Em 3 de janeiro de 2003, um mineiro nascido em Passa Quatro, ex-lder estudantil e ex-militante de esquerda perseguido pela ditadura militar se tornava o segundo homem mais importante da Repblica. Jos Dirceu de Oliveira e Silva havia sido nomeado ministro-chefe da Casa Civil do governo de Luiz Incio Lula da Silva, o operrio que chegou ao Palcio do Planalto. Juntos, esses dois homens de biografia extraordinria prometiam mudar o Brasil. O primeiro ato que Dirceu assinou no cargo foi bem menos grandioso, mas revelador de seu carter. Era uma portaria que mudava a ordem de entrada dos ministros nas solenidades do palcio. Historicamente, depois do presidente da Repblica, vinha o titular do Ministrio da Justia, por ter sido a primeira pasta a ser criada. Dirceu transferiu a prerrogativa para si: quem apareceria caminhando logo atrs do presidente seria ele, o chefe da Casa Civil  que, a partir de ento, teria tambm a primazia no uso de carros oficiais e de avies da Fora Area Brasileira. 
     De autoria do jornalista Otvio Cabral, editor de VEJA. Dirceu  A Biografia (Record; 364 pginas; 39,90 reais, ou 27 reais na verso digital) conta esta e outras tantas histrias definidoras da personalidade do biografado, o que faz do livro um daqueles difceis de largar. Ao termin-lo, o leitor se pergunta como no adivinhou antes o desfecho. Est l  revelado na forma de decises imperiais, arroubos de grandeza e tambm viagens em jatinhos e noitadas com belas mulheres  o imenso apreo de Dirceu pelo poder e tudo o que dele decorre. Tambm esto no livro a ojeriza do petista pela imprensa que no se verga  sua vontade e o embrio do heri sem causa em que se transformaria o lder estudantil mulherengo e bonito, o "Ronnie Von das massas", como era chamado na dcada de 60. As revelaes do autor e a sagacidade com que observa detalhes da conduta e do passado do agora mensaleiro condenado antecipam o que hoje parece evidente: o norte moral de Jos Dirceu sempre foi regido por outra bssola. 
     Para escrever a mais completa e surpreendente biografia de um dos mais complexos e enigmticos personagens da histria recente do Brasil, Cabral analisou 15.000 pginas de documentos garimpados no acervo de nove arquivos. Entrevistou 63 pessoas, annimas e pblicas, cuja confiana conquistou ao longo dos treze anos em que atua como reprter de poltica  primeiro pela Folha de S.Paulo e, desde 2004, em VEJA. 
     O livro comea em Passa Quatro  onde o indisciplinado filho do dono de uma grfica, terror da vizinhana e contumaz torturador de gatos diz  me, Olga, o que ele repetiria pela vida afora: "Um dia serei presidente da Repblica". Narra sua mudana para So Paulo e os primeiros envolvimentos com a poltica e as mulheres, duas paixes que o dominariam ora como obsesso, ora como problema. As ltimas, se no chegaram a ser a sua runa, ficaram perto disso.  conhecida histria da Ma Dourada, a bela agente do Dops infiltrada que seduziu o jovem cabeludo e quase encerrou sua carreira de lder estudantil, Cabral acrescenta outras, como a da estonteante danarina chinesa que, nos anos 60, fez o ento caipira recm-chegado de Minas Gerais perder a cabea  alm de uma boquinha na TV Tupi como roteirista e ator. 
     Se as mulheres mudaram o destino de Dirceu, ele se vingou do destino sendo cruel com aquelas que o amaram  e no foram poucas. Trs dos seus quatro casamentos terminaram com uma traio (da parte dele). Dois de seus quatro filhos foram concebidos fora das cobertas conjugais. E, sobre o perodo em que, se sabia, ele havia levado uma vida dupla escondendo da primeira mulher, Clara Becker, sua identidade de foragido da ditadura militar, Cabral acrescenta uma informao estarrecedora. Dirceu, naquela poca, no levava uma vida dupla, mas tripla. Alm do nome real, que no podia ser revelado, e do disfarce de pacato comerciante do Paran, ele mantinha outra mulher e outra identidade em So Paulo, para onde viajava com frequncia a pretexto de comprar roupas para a sua loja, a Magazine do Homem. 
     Dirceu no traz apenas revelaes surpreendentes, mas graves tambm. Entre os documentos inditos obtidos pelo autor est o que aponta que, em 1968, partiu do ento lder estudantil Jos Dirceu de Oliveira e Silva a ordem para sequestrar e manter em crcere privado  com as mos algemadas, presas ao cano de uma pia e submetido a "inquritos" intermitentes  o estudante Joo Parisi (veja trecho na pg. 65). Integrante do Comando de Caa aos Comunistas (CCC), Parisi foi descoberto por militantes do movimento estudantil quando tentava se passar por um deles, em meio  batalha da Rua Maria Antnia, que ops estudantes da Mackenzie aos de filosofia da USP. Igualmente indito e importante  o depoimento de uma testemunha que aponta a participao de Dirceu no assassinato de um sargento da Polcia Militar em So Paulo, em 1972. O crime ocorreu em uma das ocasies em que ele voltou do exlio de Cuba juntamente com outros integrantes do Molipo, o grupo terrorista que mais tarde seria dizimado pela represso. 
     O captulo em que Cabral relata a ascenso de Dirceu na poltica coincide com a guinada do PT para o pragmatismo, a vida adeso da sigla ao fisiologismo e o comeo do deslumbramento geral.  quando a fumaa dos charutos cubanos comea a exalar das altas rodas do petismo e as testas do partido, antes animadas a cachaa, passam a contar com a alegre presena das "meninas" de Jeany Mary Corner, a cafetina da Repblica. Dirceu bem que desconfia que no vai dar certo. Ao tomar conhecimento de que o seu protegido Silvio Pereira havia contratado quinze garotas de Mary Corner para comemorar com catorze amigos seu aniversrio na sute presidencial de um hotel de Braslia, Dirceu esbraveja: "Sacanagem a gente faz sozinho ou num grupo pequeno. Vocs esto deslumbrados com o poder, vo acabar se f..." (veja trecho na pg. 68). Tendo moldado o PT  sua imagem e semelhana, Dirceu comeava a achar feia a imagem no espelho. 
     O livro de Cabral desnuda a simbitica e tensa relao entre Jos Dirceu e Luiz Incio Lula da Silva, fenmeno crucial para a compreenso do PT e da forma como o partido conquistou o poder no Brasil. Lula, estrela emergente do sindicalismo, e Dirceu, ex-perseguido poltico recm-sado das trevas da clandestinidade, no mais se largaram. Mas a convivncia entre os dois tits do PT nunca foi um passeio no campo  e incluiu at chantagem (veja quadro na pg. 67). Dirceu e Lula caminharam lado a lado por 33 anos sem tirar a mo do coldre. Um jamais confiou inteiramente no outro, mas a relao de mtua destruio assegurada e mtuo sucesso bastante provvel amalgamou a dupla. Nesse arranjo, cabia a Lula brilhar no palanque, enquanto Dirceu fazia o servio pesado  e sujo quando preciso. A diviso de trabalho  ilustrada pela histria que o deputado Chico Alencar contou ao autor atribuindo-a a Lula em 1997: "Cansei de rodar minha bolsinha esfarrapada por a. Para ganhar a eleio, vou precisar de aliana e grana. Dei todo o poder para o Z Dirceu arrumar isso. Falei: 'Z, articula e faz. Pode at contratar o Duda Mendona. No quero saber como voc fez, s quero que a gente ganhe a Presidncia'". A vitria veio duas eleies depois e, durante os dois anos que se seguiram a ela, Dirceu "fez"  vontade, como atestou o Supremo Tribunal Federal. Lula foi alertado por pelo menos trs pessoas dos mtodos adotados por seu nmero 2 (o livro de Cabral acrescenta um quarto peso pesado  lista). Diante do que lhe relataram seus interlocutores, o ex-presidente comportou-se conforme antecipara ao deputado Alencar: oficialmente, nunca soube de nada. 
     Nas pginas de Dirceu, no se ver em nenhum momento o personagem defendendo a f comunista, discutindo O Capital (que no leu) ou debruando-se sobre questes da Repblica. Dirceu no perde tempo com ideologias. Trama, conspira, dissimula, confronta. "Faltam a Jos Dirceu alguns dotes intelectuais", observou em carta a uma amiga a militante Iara Iavelberg, primeiro grande amor do petista. 
     O livro termina com a condenao do ex-ministro no julgamento do mensalo e suas preparaes para ir para a cadeia. Dirceu est ento com 67 anos. Foi sentenciado a dez anos de priso e ficar inelegvel at 2031, quando ter completado 85 anos. Parece irrecorrivelmente perdido o projeto de poder pessoal, a nica causa pela qual genuinamente lutou. Dirceu  uma reportagem magistral sobre a vida de um anti-heri sem escrpulos que, como tantos outros na histria poltica, escondeu a ambio atrs de um falso ideal.

O SEQUESTRADOR
"O soldado da Fora Pblica Paulo Ribeiro Nunes e o estudante do Mackenzie Joo Parisi Filho, membro do CCC, descobertos enquanto se passavam por militantes do movimento estudantil, foram levados vendados ao Conjunto Residencial da USP, o Crusp, onde os apartamentos 109, 110 e 111 do bloco G eram utilizados como uma 'delegacia informal' da turma de Dirceu. L, foram interrogados e mantidos em crcere privado (...) A Parisi, porm, foi dado tratamento de inimigo de guerra, segundo relato do delegado do Dops Alcides Cintra Bueno Filho, em documento de 18 de agosto de 1970: 'Por determinao do ex-lder estudantil Jos Dirceu de Oliveira e Silva concretizou-se o sequestro do ento universitrio Joo Parisi Filho, da Universidade Mackenzie. Joo Parisi Filho foi levado para o Conjunto Residencial da Universidade de So Paulo, onde permaneceu em crcere privado por vrios dias, submetido a sevcias. Nesse conjunto residencial, Parisi foi conduzido vendado e algemado, onde foi submetido a interrogatrio, sob ameaa de morte. A vtima permaneceu presa durante dias, em condies desumanas. Aps ter passado por esses atos de atrocidade, o estudante Parisi foi conduzido de olhos vendados para a copa do quinto andar do pavilho G, onde foi trancafiado por uma noite e dois dias, permanecendo nesse local todo esse tempo deitado, com as mos algemadas e presas ao cano da pia daquela dependncia. Nessa situao foi encontrado por duas empregadas que fazem a limpeza'."

O PROTEGIDO DE FIDEL
"De incio, os militantes ficavam cerca de cinco meses no Ponto Zero, um quartel do Exrcito prximo a Havana. L, passavam toda a semana recebendo instrues de tiro, aprendendo frmulas de explosivos e a montar e desmontar armas. Nos finais de semana, iam  capital, onde podiam ler, assistir a filmes e peas de teatro  tudo devidamente selecionado pelo regime cubano. A segunda fase se passava em Pinar del Ro, onde eram alojados em acampamentos na mata. Passavam por exerccios militares e de sobrevivncia, marcha, treinamento de tiro, manobras militares e noes de topografia. O pice da preparao era uma simulao, na qual os guerrilheiros enfrentavam militares do Exrcito cubano. Os exilados que tinham alguma limitao ou problema fsico recebiam treinamentos mais leves, como o de enfermagem e Estado-maior. Daniel (codinome de Dirceu em Cuba), desde o comeo, recebeu tratamento privilegiado na ilha. A amizade com (Alfredo) Guevara lhe abrira portas e o livrara de problemas. Participou de quase todo o processo, mas fora poupado das etapas mais penosas, principalmente depois do acidente. Como ele mesmo admite, tambm escapou das doutrinaes de marxismo, j que no tinha muita pacincia para esse tipo de leitura: 'Li vrias obras de Marx e Lenin, mas no li O Capital'."

UNIDOS PELA DESCONFIANA - Dirceu e Lula se conheceram em 1980, nunca mais se largaram e jamais confiaram inteiramente um no outro, 33 anos de caminhada lado a lado sem tirar a mo do coldre.

DE OLHO NA BUTIQUE DELA - Com Clara Becker e o filho Zeca, no tempo em que fingia, inclusive para a mulher, ser o empresrio Carlos Henrique. A prtese que usava no nariz foi colocada  e, mais tarde, retirada  em Cuba.

"PEDRO CAROO"
"Toda vez que entrava no Bar Central, Dirceu ''' era saudado com o refro: 'Ele t de olho  na butique dela'. Bem-humorado, gostou do novo jeito de ser chamado: 'O apelido de Pedro Caroo era o atestado definitivo de que estava integrado  cidade'. Mesmo adaptado, passaria todo o ano de 1976 ressabiado. Muitos desconfiavam das histrias daquele forasteiro, inclusive autoridades. (...) Mas foram as mulheres, e no a poltica, o que mais atraiu Dirceu de volta a So Paulo. Primeiro, teve um longo caso com Suzana Lisboa. Passaria a se hospedar na casa dela e a usar seu carro quando na capital paulista. Brigavam muito, porm, por poltica e cime, e acabaram se afastando. Depois, engatou um romance com Miriam Botassi, antiga companheira de movimento estudantil. Era praticamente um segundo casamento. Passava uma semana por ms na casa dela, na Chcara Klabin, e viviam como marido e mulher. Chegavam s reunies juntos e frequentavam bares e restaurantes  a possibilidade cada vez mais prxima de anistia era um motivo natural para o relaxamento com a segurana. 'O Z, na poca, tinha uma vida tripla. Sua identidade real, que no podia ser revelada, a vida com a Clara no Paran e o caso com a Miriam em So Paulo'  relembra Paulo de Tarso."

O MELHOR INIMIGO DE LULA
"Para agravar o quadro, Dirceu e seu tesoureiro de campanha, Silvio Pereira, foram acusados de desviar recursos (...) As duas acusaes acirraram o clima no partido e resultaram em pedidos de investigao sobre a vida poltica de Dirceu. Ele jamais aceitou ser questionado e ameaou abandonar o PT e a poltica caso investigado pelos prprios pares. Sentindo que Lula o abandonava, resolveu atacar. Foi  casa dele, em So Bernardo do Campo, e disse que no aceitaria pagar sozinho pelos erros da campanha. E lembrou que boa parte da candidatura presidencial do partido fora financiada pelas mesmas empreiteiras, mas atravs de caixa dois, sem registro na Justia Eleitoral. A conversa, sem testemunhas, foi tensa. Dirceu e Lula caminhavam juntos havia catorze anos. Sabiam segredos mtuos  no s polticos como pessoais. Dirceu, para ficar no partido e se manter em silncio, exigiu a presidncia do PT, com plenos poderes. Lula no quis pagar para ver. Aceitou. E articulou a candidatura de Dirceu a presidente do partido."

O MINISTRO E OS DESLUMBRADOS
"Dirceu tinha trabalho para conter seus novos e velhos aliados. Em maio, Silvio Pereira organizou uma festa para comemorar seus 42 anos. Reservou a sute presidencial do Grand Bittar Hotel, em Braslia, encomendou quinze garotas de programa a Jeany Mary Corner e convidou catorze amigos, entre os quais Delbio e Dirceu. Um dos primeiros convidados a chegar sentiria o perigo de confuso e avisaria o ministro, que fugiu da festa e ligou para passar uma descompostura no aniversariante: 'Sacanagem a gente faz sozinho ou num grupo pequeno. Vocs esto deslumbrados demais com o poder, vo acabar se f...'. Estava certo. A foto de um deputado petista nu, com um charuto na mo, tirada nessa ocasio, seria utilizada para chantage-lo nos meses seguintes."

O INCIO DO FIM
"Dirceu descobrira que o Correio Braziliense do dia seguinte revelaria os favores recebidos por ngela Saragoa do BMG e do Rural. 'Foi a coisa mais grave que aconteceu. Agora  srio, no escapo mais da cassao'  avaliava Dirceu. Quando todos pensavam que se decidira pela renncia, surpreenderia: 'Vou enfrentar o Conselho de tica. No sou homem de fugir pela porta de trs'. Por telefone, avisou Kakay da deciso: 'Lavei o rosto, escovei os dentes, olhei para minha cara no espelho e decidi ficar e enfrentar o processo. No tenho cara de quem foge da luta'. Maria Rita fora a nica a apoi-lo. Os demais imploravam pela renncia. O deputado Sigmaringa Seixas, do PT do Distrito Federal, chegaria a subir na mesa para fazer um discurso em que expunha a inconvenincia da deciso. Dirceu ignorou os apelos e foi dormir. Em 10 de agosto, a Cmara abriu o processo para a cassao de seu mandato."


2. SUPREMO  BEIRA DA CURVA
Aprovado para a corte, Lus Roberto Barroso enche os mensaleiros de esperana.

     O advogado Lus Roberto Barroso, escolhido pela presidente Dilma Rousseff para ser o 11 ministro do Supremo Tribunal Federal, est pronto para assumir sua cadeira na corte  e seu papel de pea-chave no desfecho do processo do mensalo. Constitucionalista renomado, festejado pelos colegas e elogiado por governistas e oposicionistas, Barroso passou na semana passada pelo crivo do Senado. Teoricamente, sua chegada  corte dificulta a pretenso dos mensaleiros, que sonham com a reviso das condenaes. Tendo o novo ministro declarado que participar do julgamento dos recursos, previsto para o segundo semestre, a questo passa a ser aritmtica. Se o plenrio do tribunal continuasse com dez ministros, os rus s precisariam conquistar o voto de Teori Zavascki para reverter as condenaes. Agora, tero de convencer tambm Barroso. Os condenados, porm, esto otimistas. Depois das sete horas de sabatina no Senado, a tropa mensaleira passou a apostar na tese de que o novo ministro, assim como Zavascki, acolher os recursos. 
     O motivo do otimismo  o fato de Barroso ter dito aos senadores que as penas impostas so um "ponto fora da curva" no histrico do Supremo. Seriam rgidas demais. Considerado intelectualmente preparado para se contrapor a Gilmar Mendes e duro o bastante para no se deixar intimidar por Joaquim Barbosa, Barroso seria, segundo os mensaleiros, um salvador que s espera o momento de entrar em cena. O novo ministro, que ressalvou no conhecer a fundo o caso, aceitar esse papel? "Vou julgar o processo de acordo com as provas e com a minha conscincia, sem levar em considerao nenhum outro fator. Aceitei esse cargo, saindo da vida boa e feliz que levo, para cumprir um papel", disse Barroso a VEJA. "Eu me movo por princpios. E quem se move por princpios tem de estar preparado para pagar o preo." Os mensaleiros apostam principalmente nos chamados embargos infringentes para reduzir ou anular as penas. O tribunal ter de decidir, primeiro, se tais recursos so cabveis. Depois, se so ou no pertinentes. 
     Se as defesas vencerem a queda de brao, Jos Dirceu e Delbio Soares  no tero mais de cumprir a pena de priso em regime fechado. Antes de serem escolhidos, Barroso e Zavascki tiveram conversas reservadas com o ex-deputado petista Sigmaringa Seixas, amigo do ex-presidente Lula, e com o ex-ministro da Justia Mrcio Thomaz Bastos, advogado no processo e autor da tese segundo a qual o mensalo no passou de caixa dois. Isso bastou para encher os mensaleiros de esperana. No eplogo do julgamento, o pas saber se essas relaes pessoais conseguiro se impor sobre a Justia. 
LAURA DINIZ E ADRIANO CEOLIN


3. JUSTIA FEITA PELA METADE
Depois de trs meses, sete dos doze corintianos presos por morte em estdio foram soltos. Falta descobrir o assassino.
LESLIE LEITO, DE LA PAZ

     No fim da ltima quinta-feira, 6, o presidente da Bolvia, Evo Morales, telefonou para Dilma Rousseff, em Braslia. Queria informar  presidente uma deciso que acabara de referendar. Frustrado na tentativa de comunicao, Morales pediu ento que ligassem para o ex-presidente Lula. A ele revelou, em primeira mo, com a empolgao de quem traz boas-novas, sobre a libertao de sete dos doze torcedores do Corinthians que, havia exatos 107 dias, estavam presos em Oruro, a 230 quilmetros da capital, La Paz. Eles eram acusados de envolvimento na morte do boliviano Kevin Espada, de 14 anos, atingido por um sinalizador durante uma partida da Copa Libertadores. Os outros cinco brasileiros devem ser soltos em no mximo dois meses. Ser o desfecho inconclusivo de uma investigao de assassinato atropelada pela inpcia da polcia boliviana, numa ao apressada que ganhou contornos de confronto diplomtico acompanhado de perto pelo prprio Lula (ele chegou a cogitar apoio in loco aos companheiros corintianos, mas desistiu para no ferir os brios nacionalistas de Morales). Os sete torcedores embarcariam para So Paulo no domingo pela manh, em voo de carreira, com passagens (300 dlares cada uma) pagas pelo Itamaraty.  
     A notcia pegou a diplomacia brasileira de surpresa. A embaixada em La Paz havia acabado de enviar a Oruro o padre Aldo Francolatto, brasileiro  frente da Pastoral do Imigrante na Bolvia, com a misso de amainar os nimos cada vez mais exaltados no presdio. Corria a histria de que alguns dos corintianos estavam em p de guerra, e que Tadeu Andrade, tesoureiro da torcida organizada Gavies da Fiel e espcie de porta-voz do grupo, se isolara dos demais. Foi s chegar a Oruro que o padre soube da liberao dos sete. Ele prprio tratou de conduzir em uma picape quatro deles  capital, aonde chegaram s 23h46. Pernoitaram na pastoral. Os outros trs brasileiros ficaram um dia a mais em Oruro, para visitar os colegas presos, contrariando enftica recomendao do promotor de Justia para que debandassem o quanto antes. A ideia era reduzir o "risco de retaliaes" da torcida do San Jos, o adversrio do Corinthians no jogo fatdico. Na madrugada de sbado, os sete voltaram a se reunir em La Paz. 
     Assinado pelo promotor Alfredo Santos, o parecer do Ministrio Pblico de Oruro, a cujo contedo VEJA teve acesso, justifica a soltura dos sete por falta de indcios incriminadores. Depois de analisar fotos e vdeos, concluiu-se que quatro deles nem sequer estavam no estdio na hora do disparo fatal (como, alias, afirmavam desde o incio). O mesmo parecer tambm deixa entrever a fragilidade das provas contra os torcedores ainda encarcerados. Uma delas  o exame que buscava vestgios de plvora nos dois corintianos mais prximos ao local de onde o sinalizador foi lanado. Deu 100% negativo. Outros dois torcedores, j se sabe, tambm no haviam pisado no estdio na hora do disparo  informaes que expem o alto grau de aleatoriedade com que a deciso de libertar um grupo e no o outro foi tomada na Bolvia. " realmente difcil entender os critrios adotados. Na semana que vem, vamos nos reunir com a promotoria para analisar a situao", disse a VEJA o embaixador Marcel Biato. 
     A tendncia da Justia boliviana  condenar os cinco por delitos menores. A pena no passaria dos trs anos, mas, com todas as atenuantes, cairia para poucos meses de recluso  mais ou menos o tempo que os brasileiros ficaram presos. Se esse cenrio se confirmar, at agosto eles  devem estar no Brasil. Um indcio dessa disposio  o fato de o relatrio do MP de Oruro pela primeira vez identificar como autor do disparo fatal o menor H.A.M.. de 17 anos, que se apresentou em So Paulo, confessou ter acionado um sinalizador e foi ouvido na cidade pelo promotor Alfredo Santos. Penalizar os corintianos  mas nem tanto   uma sada bem acolhida pelas autoridades bolivianas. De um lado, remendaria a lambana diplomtica junto ao Brasil: de outro, daria uma resposta aos bolivianos que clamam por punio. 
     Nos mais de trs meses de priso, os brasileiros tiveram certas regalias, como um telefone pblico  disposio e refeies compradas fora, mas tambm conviveram com atitudes tpicas de sistemas alheios a direitos humanos elementares. Sobrou at para o diplomata brasileiro Eduardo Saboia, que desafiou os policiais e encarou trs homens no "calabouo"  uma cela isolada, pequena e sem luz. A apurao do assassinato de Kevin tem se arrastado por um misto de incompetncia da Justia e falta de recursos bsicos da polcia boliviana. Como no h peritos em vdeo no pas, at agora no se sabe nem a trajetria percorrida pelo projtil que teria atingido o menino, dado essencial para chegar ao autor do crime. A famlia de Kevin deve receber indenizao de 250.000 dlares do Corinthians, mas dificilmente ver o assassino na cadeia. Muito provavelmente, esse ser mais um daqueles atos de barbrie tpicos das torcidas fanticas que cair no esquecimento.

NA ESPERA - Os cinco torcedores brasileiros ainda delidos na Bolvia:  Cleuter Barreio, Jos Carlos Jnior, Reginaldo Coelho, Leandro Oliveira e Marco Aurlio Nefreire.


4. A DILMA PRECISA EVOLUIR
DANIEL PEREIRA

Para distensionar a relao com o aliado PMDB, s turras com o governo em votaes importantes no Congresso, a presidente Dilma Rousseff reuniu-se na semana passada com caciques do partido e prometeu melhorar o dilogo. Presente ao encontro, o presidente da Cmara, Henrique Alves, elogiou o gesto. Apesar do afago, ele disse a VEJA que Dilma tem pela frente outros desafios capazes de atrapalhar a sua reeleio. A inflao e o pibinho, especialmente. 

Por que o governo enfrenta tantas dificuldades para aprovar seus projetos? 
A base do governo Dilma  a maior entre todos os governos, com 420 dos 513 deputados federais. Apesar disso, o Planalto no conseguiu colocar 257 deputados no plenrio, numa sesso decisiva, e garantir quorum para a votao da MP da reduo da tarifa de energia.  um sintoma claro de que h insatisfao entre os aliados. O motivo  muito simples. A eleio presidencial j  discutida diariamente, o que provocou tambm a antecipao das campanhas de governadores, senadores e deputados. Todos da base querem a reeleio da presidente, mas querem tambm a prpria reeleio. A ansiedade  geral, e h insegurana diante do fato de os pedidos feitos ao governo no serem atendidos no prazo necessrio. 

Na prtica, a base quer cargos, emendas e outras benesses? 
A funo do parlamentar no  s legislar. Ele tem de prestar contas do que realiza em Braslia. Falo do atendimento das demandas de estados e municpios, da liberao dos recursos para resolver as carncias da populao. Esses detalhes precisam ser ajustados na relao da presidente com o Parlamento. O deputado Vieira da Cunha me disse que em 1996, quando era candidato a prefeito de Porto Alegre, convidou a Dilma para ser vice na chapa dele. Na ocasio, ela respondeu: "Vieirinha, me desculpe, quero muito te ajudar, mas eu no tenho perfil de candidata". Em 1996, ela no tinha perfil de candidata. Em 2010, tornou-se presidente. Foi uma evoluo muito grande num prazo muito curto, mas, para o que precisa ser feito, a Dilma precisa evoluir um pouco mais. 

A responsabilidade pela desorganizao na base governista  da presidente? 
No adianta tapar o sol com a peneira nem culpar ministro A ou ministro B. A responsabilidade  da presidente, e a misso  intransfervel. Fao essa advertncia com a autoridade de quem j tem candidato a presidente em 2014, que  a prpria Dilma. Ela  exemplar naquilo que o povo quer de um presidente  no rigor, na tica, na fiscalizao. Mas falta lidar melhor com o Parlamento. A presidente tambm tem sido advertida da necessidade de conversar com os agentes econmicos antes de tomar certas decises. Ela precisa exercitar mais a arte do ouvir, do convencimento e da conversa poltica com P maisculo. 

O resultado da reunio com a presidente sinaliza uma guinada nessa relao? 
Os ltimos episdios em votaes importantes resultaram no amadurecimento necessrio para a deciso da presidente de enviar um projeto de lei, e no uma medida provisria, sobre o novo cdigo da minerao. Essa opo mostra um novo caminho para a construo de uma relao que tem de ser respeitosa, leal e eficiente. 

H diretrios regionais do PMDB que esto em litgio com o PT, casos do Rio e da Bahia. O senhor d como certo o apoio do partido a Dilma em 2014? 
A relao do PT com o PMDB  de tapas e beijos. Beijos na relao nacional, com a presidente Dilma e o vice, Michel Temer, e alguns tapas nas relaes estaduais, decorrentes das disputas naturais entre as bases dos dois maiores partidos do Brasil. No tenho a menor dvida de que 80% do PMDB optaria pela reeleio da chapa Dilma e Temer. 

O que pode atrapalhar a reeleio de Dilma? 
O ex-presidente Lula tinha aquele jeito simptico, envolvente, intimista at. A presidente Dilma  de outro tipo. Ela exige rigor e  muito sria no trato. Cada um tem seu jeito, e o jeito no muda, mas acho que ela consegue somar a viso gerencial com as qualidades do Lula. Ela caminha para uma reeleio muito tranquila. H um porm apenas, que  a questo da inflao. Por isso o governo est to dedicado a evitar que esse mal volte a assombrar a economia e o povo brasileiro. O PIB do primeiro trimestre tambm foi frustrante. A rea econmica esperava mais, mas h males que vm para o bem e servem justamente como sinal amarelo. A competncia est  prova. 

Por que a maioria dos parlamentares quer aprovar a proposta que limita o poder de investigao do Ministrio Pblico? 
Porque a maioria acha que h excees que contaminam a instituio, procuradores que exageram e adotam posturas equivocadas. O MP tem exercido um papel exemplar na fiscalizao e na investigao de tudo aquilo que queremos eliminar do pas. Mas  preciso que esse trabalho se faa com responsabilidade, porque muitas vezes uma acusao mal fundamentada destri famlias, carreiras e reputaes. 

Se o problema est nas excees, por que punir toda a instituio? 
 isso que eu quero evitar, porque no seria correto com o Ministrio Pblico. Agora, o tensionamento entre o MP e a polcia no pode continuar. A nica sada  fechar um acordo e definir claramente as competncias de cada um. O Brasil quer os dois segmentos trabalhando juntos, e no se questionando. A Cmara vai querer o mesmo. Essa matria no pode ter vencedores nem vencidos. 

A Cmara cumprir a deciso do Supremo Tribunal Federal que cassou o mandato dos deputados condenados no mensalo? 
O STF, com todo o respeito, no tem o poder de cassar mandatos. A finalizao desse processo que todo o Brasil tem acompanhado, com seus acertos ou no,  de responsabilidade do Legislativo. Quem declara a vacncia do cargo e convoca o suplente  o Legislativo. 

Mas isso  uma questo protocolar ou h possibilidade de a Cmara absolver os deputados condenados? 
No consigo enxergar a possibilidade de a Cmara absolver os deputados condenados no mensalo. No consigo imaginar que a Cmara venha, por uma deciso poltica, invalidar uma deciso tomada pelo STF aps um longo processo em que foram respeitados o direito de defesa e a produo de provas. Posso garantir que no haver nenhum confronto que venha a colocar em posies antagnicas o Poder Judicirio, na sua deciso de mrito, e o Poder Legislativo, na sua prerrogativa de concluir o processo. 

Por causa do mensalo, parte do PT passou a defender aes destinadas a manietar a imprensa e outras instituies. Qual a avaliao do senhor a respeito? 
Eu vivi um tempo em que o Congresso era mero carimbador do Executivo e agia de maneira constrangida, amedrontada. Depois, vivi um tempo em que o Parlamento, liderado por Ulysses Guimares, era o desassombro, a coragem e a ousadia. Hoje, vivo a maturidade do Congresso. Participei de todo o processo de construo da liberdade de manifestao e de pensamento e posso afirmar que a chance de manietar a imprensa  zero. Essa  uma conquista irreversvel da democracia brasileira. 


5. ABANDONADOS, USADOS E, AGORA, FURIOSOS
A deciso da Casa Civil de quebrar o monoplio da Funai na demarcao de terras  boa para o Brasil e melhor ainda para os ndios, os mais esquecidos entre todos.
CAROLINA RANGEL

     O nmero de reas indgenas no pas cresceu seis vezes nas ltimas trs dcadas: hoje, abrange 13% do territrio nacional, quase o dobro do espao destinado  agricultura, de 7%. No se tem notcia, no entanto, de que a situao dos silvcolas brasileiros tenha melhorado na mesma proporo. A maioria ainda vive na mais absoluta misria  a incidncia de tuberculose  o triplo da mdia nacional, a mortalidade infantil  o dobro e, em algumas etnias, 90% dos integrantes dependem de cestas bsicas para sobreviver. A Funai, subordinada ao Ministrio da Justia,  o rgo ao qual caberia cuidar do bem-estar dessa populao, dedicando-se, por exemplo, a melhorar suas condies de moradia, saneamento bsico e produo agrcola. No  o que tem ocorrido. "Hoje, o nico departamento da Funai que funciona  o responsvel por novas demarcaes, todos os outros esto esquecidos e enfraquecidos", afirma o antroplogo Edward Luz. Ao substituir o trato da questo indgena por um indigenismo postio, to natural no Brasil quanto a luta de classes e o racismo, a Funai acabou por prejudicai' o cumprimento daquela que deveria ser a sua tarefa primordial. E ainda contribuiu para acirrar o clima de p de guerra em que se encontram hoje ndios e proprietrios de terra em mais de sessenta reas do pas.
     
     Atualmente, a Funai comanda praticamente sozinha todo o processo de demarcao. S ao final os casos so enviados ao Ministrio da Justia, que nos ltimos trinta anos nunca rejeitou um nico pedido do rgo  nem mesmo os absurdos. Um exemplo que se encaixa nessa categoria  o reconhecimento da reserva indgena de Mato Preto, no Rio Grande do Sul. Em 2003, ndios guaranis que viviam na reserva Cacique Doble, em Santa Catarina, resolveram abandonar o lugar e se mudar para Mato Preto, numa terra que passaram a reivindicar. Em 2005, a antroploga Flvia Cristina de Melo elaborou um laudo apoiando a reivindicao. 
     E por que os guaranis exigiram uma nova reserva? Embora tenha omitido a resposta em seu laudo, a antroploga a relatou na tese de doutorado que escreveu sobre a tribo. Os guaranis, disse ela, decidiram morar em outra terra em funo de uma "viso" que tiveram depois de um ritual regado a aguasca, uma erva alucingena. Em seu laudo, Flvia recomenda ainda que a nova reserva tenha 4230 hectares, vinte vezes o pedido inicial, de 232 hectares. Sustenta que essa extenso  importante para que os ndios possam viver da "caa de antas e rates do banhado", embora praticamente j no existam antas na regio h dcadas. Ainda assim, a Funai e o Ministrio da Justia reconheceram a rea indgena, que s no foi demarcada at agora porque o governo gacho contesta o despautrio na Justia. A previso  que as 300 famlias de agricultores que l vivem sejam retiradas at o fim do semestre para assentar os 43 indgenas. Por lei, os agricultores no tm direito a um centavo pelas terras perdidas  o estado pode indeniz-los apenas por eventuais benfeitorias realizadas nas propriedades. 
     E aqui surge outra faceta dramtica da questo: os principais afetados pelos critrios duvidosos das demarcaes feitas pela Funai so, muitas vezes, lavradores to pobres quanto os ndios. No Paran, onde a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuria (Embrapa) concluiu em abril um estudo sobre a demarcao de quinze territrios, a maioria dos proprietrios que tiveram as terras invadidas era formada por pequenos agricultores. As fotos do estudo mostram apenas casebres nos terrenos. Alguns dos moradores, desprovidos de suas casas, precisaram ir viver com os filhos para no virar sem-teto. O agronegcio  outra vtima do tratamento desigual que o governo vem dando  questo. Um levantamento da Confederao da Agricultura e Pecuria do Brasil (CNA) estima que cada hectare perdido para terras indgenas representa um prejuzo de 500.000 reais para o agronegcio, a maior fonte de divisas do Brasil. 
     Na semana passada, partiu da Casa Civil a mais sensata proposta para comear a desenrolar o n da questo indgena. A ministra Gleisi Hoffmann decidiu baixar uma portaria determinando que a deciso sobre as demarcaes de terra deixe de ser monoplio da Funai e passe a ser analisada tambm por rgos como a Embrapa e ministrios como o do Desenvolvimento Agrrio, das Cidades e da Agricultura, Pecuria e Abastecimento. 
     A Funai e as ONGs no gostaram. O Conselho Indigenista Missionrio (Cimi), ligado  Igreja Catlica, convocou os ndios para pressionar o governo a recuar, disseminando o falso boato de que a Funai seria fechada e as demarcaes, paralisadas. "Os ndios ficaram com medo e preocupados. Por isso, assumiram uma atitude mais radical", diz Jorge das Neves, chefe do posto da Funai em Sidrolndia (MS), onde um ndio morreu em confronto com a Polcia Federal durante a desocupao, na semana passada, de uma propriedade invadida. 
     A desocupao havia sido ordenada pela Justia. O fato de o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidncia, ter chegado a dizer que ela no deveria ter sido realizada reforou a certeza de que h uma clara diviso no governo sobre o assunto. A demisso da presidente da Funai, Marta Azevedo, na tarde de sexta-feira,  sinal de que o lado mais sensato est vencendo. 

COM REPORTAGEM DE ANDR ELER E FABRCIO LABEL


6. HOMEM BRANCO QUER APITO
Com a lenincia da Funai, proliferam falsos ndios em busca de benefcios sociais e de cotas universitrias.

     Onde h benefcios fornecidos pelo estado  e no Brasil os h, com fartura  sempre existiro aproveitadores e fraudadores. Com os privilgios indgenas, no  diferente. Ter o status oficial de ndio significa poder pleitear um bom pedao de terra para chamar de seu, receber automaticamente cesta bsica e o Bolsa Famlia, ser contemplado com um atendimento mdico gratuito melhor do que o da mdia da populao e ter prioridade na disputa por vagas em universidades. Criar uma ONG de defesa da causa indgena tambm  um grande negcio, porque permite receber repasses milionrios do governo e angariar doaes no exterior. No espanta que haja tanto cidado que nunca viu um tacape na vida querendo o atestado de ndio, e tanta ONG dando assessoria na arte de se fingir como tal. O amazonense Paulo Jos Ribeiro da Silva, por exemplo, quando precisa posar de ndio, saca de seu arco e flecha comprado em feira de artesanato, expe o torso avantajado e vai para o meio das folhagens no quintal. Ele se diz um lder da etnia apurin. Uma investigao da Polcia Federal no Amazonas o desmascarou recentemente. Paulo Apurin, como o farsrio se autodenomina,  habitue de solenidades com ministros de estado e gaba-se de ter agraciado a presidente Dilma Rousseff com um de seus cocares de fantasia de Carnaval durante a inaugurao de uma ponte sobre o Rio Negro. Segundo a PF, em 2007 Silva fraudou, em conluio com funcionrios da Funai, a emisso do registro administrativo de nascimento indgena (Rani), um documento equivalente  certido de nascimento. Ele descobriu o caminho das pedras ao estagiar na Funai em Manaus, e gostou tanto do golpe que transformou a prpria me e os quatro irmos em ndios. A me, Francisca da Silva Filha, usou o registro para entrar como cotista no curso de turismo da Universidade Estadual do Amazonas. "A gente sempre soube que o Paulo no era  ndio. Finalmente a polcia deu um fim a essa farsa", diz (o autntico) Cludio Apurin, lder da etnia. Ele conta que, no ano passado, vrios lderes apurins tentaram convencer Silva a desistir de se fantasiar de ndio, porque isso estava desmoralizando a tribo. No adiantou. "No Brasil, basta querer ser ndio para ser reconhecido", diz Paulo Jos Ribeiro da Silva, o falso cacique, num arroubo de sinceridade que soa a confisso, e desafia: "Essa perseguio vai me transformar em senador, pode anotar". 
     Segundo o superintendente da Polcia Federal no Amazonas, o delegado Srgio Fontes, daria para encher uma aldeia com a quantidade de gente com Rani fraudado, por causa dos critrios frouxos da Funai. S em Manaus, foram expedidos 1553 Ranis em 2011. Entre 1979 e 1999, a mdia era de apenas 24 por ano. A folia dos falsos ndios ocorre tambm em outros estados. No Rio Grande do Sul, onze famlias foram reconhecidas como ndios charruas, em 2007. Acontece que esse povo desapareceu da regio no sculo XIX sem sequer ter tido sua cultura devidamente estudada e registrada. Apesar disso, os supostos charruas dizem usar sua lngua, suas danas e suas canes originais. O vice-cacique, Srgio Senak,  loiro de olhos azuis. Tambm foram ressuscitadas as etnias borari, no Par, e tupinamb, na Bahia. Tem antroplogo fazendo milagres. 
LEONARDO COUTINHO


